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Pensar enlouquece, pense nisso!




Neste começo de ano resolvi fazer algo diferente. Depois de admiráveis sete anos trabalhando como repórter, editor-chefe e assessor de imprensa, resolvi “tirar férias”. Ao invés de publicar reportagens ou conduzir um jornal, na verdade eu estava precisando era mesmo de uma retrospectiva pessoal, portanto decidi.

Enquanto muitas pessoas ao final de um ano elevam preces pedindo riqueza e prosperidade, o meu único pedido naquela ocasião era de um tempo só para mim, pois era fundamental e mais valioso do que qualquer outro bem, que possa existir. Eram minhas férias.

Logo de cara me dei conta que haveria um número bem expressivo de coisas a se fazer e melhor prazeres insólitos. Pensava muito em diversão. Mas, para entrar com o pique todo, pensei em algumas questões que podem ser seguidas. Entre elas, a organização do tempo. Pois, é comum ouvirmos a expressão: “não dá. Não tenho tempo”. Mas na verdade, tempo é o que não nos falta. Temos 24 horas por dia e precisamos saber aproveitá-las. Então, o que temos são as chamadas prioridades.

Após organizar o tempo, decidi que também eu iria fazer coisas proveitosas como ler um bom livro e separei em minha pequena e humilde biblioteca – O Tratado da Correção do Intelecto do holandês Baruch Spinoza. Também coloquei como metas, sorrir de coisas banais, rever velhos conhecidos e conhecer novas pessoas, ler livros de poesia e me divertir com histórias em quadrinho, colocar sonhos absurdos em minha lista de tarefas e vibrar a cada pequena conquista. ]

Contudo, de cara me veio um bloqueio criativo. Eu, que por tantas vezes me vi diante de um papel em branco ou de um documento no Word relatando em reportagem o que aconteceu e que viria a acontecer em Picos e região, fiquei sem saber o que estava por vim. O problema nem foi de falta de idéias; elas surgem aos borbotões. O grande drama, ao menos para mim, estava em me organizar a fim de alinhar todos os impulsos criativos de como seria esse passatempo.

Como bom cinéfilo que sou, pensei também em ver um bom filme. De cara, logo veio uma sensação que detesto - a emoção que ocorre nas situações onde algo obstrui de alcançar um objetivo pessoal – a Frustração.

Poxa já não existe o Cine Spark que conheci e vivenciei os últimos dias de seu apogeu, da Praça Félix Pacheco, ponto de encontro da juventude picoense até os anos 90, hoje o ponto mudou-se de endereço para “Praça de alimentação”, na confluência das ruas Olavo Bilac com Monsenhor Hipólito.

Poxa. Minha cidade que têm quase 100 mil habitantes, uma importância histórica e econômica de relevância e não tem um cinema! Pior nem Teatro e é bom lembrar que a população aqui nunca viu uma peça de teatro, apesar do grande esforço e belo trabalho dos atores e diretores picoenses. A principal diversão em Picos é caminhar, olhar as pessoas (falar das pessoas, mau de preferência), sentar no banco e assistir à vida passar. A mais pura frustração cultural que se multiplica pelo país.

Daí fui pesquisar e descobri que mais da metade dos municípios brasileiros não contam com qualquer programa de cultura bancado pelo poder público nem com instituições que ofereçam entretenimento de graça. O dado consta de levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os dois estados mais ricos são justamente os que mais centralizam a oferta de cultura gratuita. E de cada 100 municípios brasileiros, 98 não têm salas públicas de cinema, nem centros culturais. E 83 deles não possuem salas de espetáculos ou teatros que pertençam ao município.

Ou seja, levar programa de cultura gratuito para a população que mora no interior é o grande desafio do próximo presidente e do nosso futuro Governador. Pois, precisaria avançar para o Estado e o país se transformar em uma grande nação onde o conhecimento e a cultura se transformam no principal ativo na sociedade do conhecimento. Pense nisso e cobre, eu vou cobrar!

E se partirmos do principio que o acesso a produção cultural no nosso país é totalmente defasado, faz sentido dar um incentivo à população. Mas realmente não consigo acreditar que seja realmente esse o motivo. Acho que tem mais haver com o lance de deixar o povo à deriva mesmo. Sempre utilizar a velha política do "pão e circo". Assim como um mágico que tira tudo - suas ilusões, seus sonhos, sua vida - do vazio da cartola.

Enfim. Não tem cinema nem teatro na minha cidade. Novamente a angústia aparece com uma tal confusão. Muito antes, perpassa-a uma estranha intranqüilidade.
E agora o que fazer?

Um amigo me respondeu.

- Wallysson "E como Picos não tem mar, a gente vai pro bar".

Ouvindo atentamente o mesmo, não posso negar que num certo momento fui tomado por uma imensa e insana fúria (raiva mesmo acredite). Pois, nessas horas confesso que só a paciência e a tolerância não bastam. Mas sempre é bom escutar pessoas assim, com sensibilidade acima da média.
E Caro amigo desculpe minha intromissão, mais tem razão.

A verdade é que temos tantos problemas em nossa cidade a serem resolvidos, e que não são poucos, e também sei que não é da noite para o dia que se fará isso.

Dias depois, outra meta veio “Por Água Abaixo”. Vou tentar o Esporte, ou ir a um Parque. Como? Minha cidade não tem ginásio de esportes, para promover jogos, muito menos Parque Natural. Até estão reformando uma quadra na Zona Leste (depois de anos e anos parado a construção), mais fica a reflexão, depois ficará fechada, só sendo usada em determinados dias, ou em ano eleitoral? Pense nisso!

Moro em Picos desde sempre, tipo três décadas e até hoje estamos eu e toda a comunidade esperando, para que nossos filhos tenham mais liberdade para brincar, e não tenham que se espremer entre carros e bicicletas, brincando no meio da rua como acontece sempre. E pior que sei que eles (os homens de gravata) irão bater a porta em época de eleição e na hora tudo irão fazer para contornar isso, mas que na verdade fazem disso pouco caso!

Continuei pensando. E me perguntei, que tal um clube? O primeiro que veio em mente foi o Samambaia Campestre Clube (diga-se de passagem in memorian). Em ruínas mesmo. Pior é que até agora, ainda não se ouve falar em qualquer baile de carnaval. Alguns anos atrás os convites para as festas carnavalescas eram disputadas no tapa. Bons tempos...

Amigo leitor, espero que entendam a minha cólera e peço desculpas a quem possa ter ofendido, mas, estou farto de tantas irregularidades em nossa cidade, seja ela política, seja ela administrativa. E acreditem, não tenho sangue de barata!

Volta e meia eu paro e penso qual cidade que quero deixar para meus filhos. Talvez você me ache um profundo ingênuo, mas se eu citar sociedades que conseguiram construir relacionamentos marcados por maior liberdade e segurança e índices menores de violência e corrupção você apresentará uma série de argumentos para justificar o porque delas conseguirem e nós não. Mesmo assim quero deixar claro que não estou tentando matar a faísca de esperança que ainda brilha em seu coração.

Enfim: "Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas (necessidades materiais) vos serão acrescentadas" (Mateus 6:33).

E as minhas férias podem ter chegado ao fim. Após muitas discussões e uma rasteira, cheguei na conclusão que um artigo, é pouco para escrever sob o ponto de vista do são entendimento humano, o “mundo às avessas’.

Agradeço a Deus, todos os dias, pela oportunidade que Ele me ofereceu de ser feliz. Só desejo que esta felicidade seja duradoura e não apenas "infinita enquanto dure".

Quanto ao fato em si, obtive uma conclusão unânime entre os acontecimentos e achei digno procurar outra diversão.

E por falar em férias...férias de jornalista é uma coisa de louco mesmo. Mas uma das prioridades, havia deixado reservada. E na lista lá estava. Era meu tempinho para os estudos em casa.
Organizei novamente a importância dessa tarefa.

Encontrei o ambiente certo para estudar: encontrei um lugar sem ruídos externos, sem tentações e distração, dentro das minhas limitações. E fui ler Baruch Spinoza ou simplesmente Espinosa. E ele me ensinou como Descartes, onde fala que temos a noção clara do que é verdade, pois ela é certa e suprime toda a dúvida. Spinoza fala que o bem e o mal são pareceres, que só existem nas relações. Mas reconhece como bom e na Ética, diz que certas coisas nos são agradáveis, e nos esforçamos para que elas sejam frequentes. Mas uma coisa tomada em si não nem boa nem má.

Dias depois, experimentei ouvir música: para algumas pessoas, a música pode ajudar na memorização; acordei cedo, tendo mais tempo para realizar compromissos, tomei nota à mão conceitos interessantes, passei a limpo anotações, procurei encontrar padrões e pontos em comum entre cada um dos tópicos dos meus estudos, e associei a imagens claras e vívidas; e por fim escrevi este artigo.

Se o humor político tem um quê de vingança, sem nos dar opções de lazer, que esse artigo tenha um quê de carrasco. Isto é o que prometi tratar nesta primeira parte. Mas, para não omitir nada do que pode levar ao conhecimento do intelecto e a suas forças, direi ainda pouca coisa da memória e do esquecimento.

Ao pensar, lembrei que sou classificado pelo número de minha Carteira de Identidade, filho de um país que eu não escolhi. Cria de uma República onde governa o Silêncio. Com políticos que me envergonham, acobertados por um reles voto anônimo. Quem de nós, quando criança, ou nos momentos de decepção com este mundo cheio de loucuras, não desejou ser um náufrago, na solidão de uma ilha do Pacífico, tal como Robinson Crusoé?

Serei eu apenas uma estatística que assiste à TV, consome e respira? Serei, como dizia Roquentin, aquele personagem de Sartre, "um existente que nasce sem motivo, dura por fraqueza e morre por acaso"? Afinal quem você é?

Pense nisso!!! Enquanto tiro minhas férias para estudar.

"Viva la Vida" e Carpe Diem com responsabilidade.

Wallysson Bernardes
Jornalista e Historiador

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